Colonizados sim, inferiores nunca

Boas Leituras, Todos os Assuntos — Por - 16/08/2011 6:53 am

Hoje trataremos de resgatar em nós um pouco do espírito que  ainda  norteia a vida e a morte dos portugueses.

Falo de Camões que, mesmo tendo morrido na miséria, amou e defendeu sua pátria, compondo o belíssimo poema épico Os lusíadas, cantado em verso e prosa por gerações do mundo todo, num misto de exemplo e caminho para valorização do que pertence a cada um de nós.

Que orgulho ter a satisfação, numa roda de conversa, de dizer que Machado de Assis, Manuel Bandeira e tantos outros bons escritores e poetas são nossos.

É ela, a língua portuguesa, que nos faz sentir maiores e nos protege de qualquer sentimento de inferioridade que certo dia pudemos ter.

Pensar no intrigante romance entre Bento e Capitu traz à memória um tempo em que os folhetins semanais deixavam as pessoas ávidas pela leitura do próximo capítulo do tão falado D. Casmurro.

O folhetim era como hoje são as novelas, que envolvem uma família inteira diante da tão cobiçada telinha azul. Assim era com o Machado, quando o chefe de família sentado à mesa após o jantar, lia um capítulo e todos atentos e de olhos arregalados para não perder uma vírgula sequer, aguardavam ansiosos o desfecho de uma história de amor e “traição”.

E como não falar de Bandeira e sua tão famosa Pasárgada: ”E quando estiver mais triste/mas triste de não ter jeito/quando de noite me der/vontade de me matar/-Lá sou amigo do rei -/terei a mulher que eu quero/na cama que escolherei/vou-me embora pra Pasárgada”

Que lugar de sonho criou o poeta, que capacidade incrível de nos transportar magicamente para um mundo sem medo, sem tristeza, sem dor. Preciso de todos diria Drummond, o poeta que vai de mãos dadas e carrega consigo o sentimento do mundo.

Não há modo mais simples de mostrar o valor de um país que não seja pelo bom uso da língua. E isso é belo quando se lê bons autores, dá um sentimento de posse, pois eles falam a mesma língua que nós, nos redimimos de um pesar secular, colonizados sim, inferiores, nunca.

Que paradoxo é a colonização do nosso país, tantos problemas trouxe em seu bojo, tanta falta de respeito com os verdadeiros donos de nossa terra, preço alto compensado pelo contato íntimo com Fernando Pessoa, Camões e Saramago.

Que privilégio falar a mesma língua que eles, ler seus textos originais, conhecer suas ideias mais profundas, sem adaptações ou outros subterfúgios que possam existir através do olhar de um tradutor.

Não se trata somente da língua falada, mas principalmente da língua pensada, quando guardamos em nós pensamentos , que são como rebanhos na voz de Pessoa: ”sou um guardador de rebanhos./O rebanho é os meus pensamentos/E os meus pensamentos são todos sensações.”

Ler Camões é sentir o pulsar forte do seu coração, quando em “Os lusíadas” fala de um povo que tem orgulho de sua terra, de sua origem e de suas tradições. É um exemplo para qualquer país do amor à sua terra, tão magistralmente retomado por Fernando Pessoa em “Mar portuguez” quando nos pergunta se valeu a pena tanta dedicação, ao que ele mesmo responde: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

Nossa alma brasileira é enorme e nela cabem não só os portugueses, mas todos os imigrantes que vieram e que virão, são eles os disseminadores da nossa língua, misturando italiano, inglês, francês, japonês, espanhol, árabe e tantos quantos aqui aportarem, numa mescla de falares que beiram o espanto e às vezes o riso, mas que nos enche de orgulho, sabedores que somos de sua contribuição.

Como não se extasiar com a leitura de um Saramago, português poeta em prosa e que tantos seguidores arrebanhou ao escrever seus inquietantes romances. Um escrever de acordo com o nosso tempo, texto conciso, ausente de parágrafos e pontuações, porém íntegro e por vezes chocante.

 Bons exemplos de escritores de cá e de lá e que podem contribuir de maneira significativa para um viver com mais sabor e alegria.

Afinal, que tempo é o nosso? É um tempo de gente sem tempo, de pressa, depressa, de pouco falar, de pouca paz, contudo de uma efervescência crepuscular, que corre ao encontro da quietude da manhã, num levantar ligeiro abraçando avidamente o dia que começa. 

Boas leituras!

Até breve…

Yvanize
yvanize@doispensamentos.com.br

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